No BI era "José Manuel Évora Garcia", para a generalidade das pessoas que trabalhavam com ele era "Dr. Évora", e para os colegas mais próximos era simplesmente "Zé Évora" ou "Évora".

Fica aqui o meu testemunho, para a família, para os amigos, e para não me deixar esquecer.


Maio de 2009

Tecnologia: uma "paixão" com sentido prático

O Dr. Évora era um amante de tecnologia com um sentido muito prático. Experimentava ou lia sobre dezenas de produtos, e sabia perceber rapidamente o potencial de cada um deles. Quando o produto chegava em força ao mercado, o Dr. Évora já tinha decidido se se tratava de uma novidade com potencial a explorar, ou um gadget que rapidamente passaria de moda.

Em determinado momento, o Dr. Évora tomou contacto com um computador que trazia associada uma imagem de facilidade de utilização, que se convertia em produtividade dos utilizadores e em melhores resultados para as organizações. Esse computador era o Macintosh, surgido em 1984, e que estava a ter um grande sucesso nos Estados Unidos.

Na Interlog, o importador do Macintosh para Portugal, o Dr. Évora encontrou pessoas que lhe demonstraram todo o potencial da tecnologia, e começou a adquirir computadores Macintosh "à dúzia" para os serviços da SRAP.

Alguns (poucos) anos e umas centenas de Macintosh depois, quando tomei contacto com os serviços da SRAP, encontrei uma realidade com "anos-luz" de avanço face àquilo a que estava habituado. Enquanto nas restantes organizações ainda estavamos na máquina de escrever, nos terminais com ecrãs verdes ligados a computadores centrais, ou em computadores pessoais com sistemas operativos baseados em linhas de comandos, a SRAP tinha computadores pessoais com interface gráfico intuitivo e ligação em rede para partilha de ficheiros e impressoras.

Mesmo pessoas com um nível de formação baixo conseguiam fazer a gestão do seu computador, dominando perfeitamente os conceitos de documentos e pastas, o que reduzia a equipa de suporte a um número mínimo de pessoas responsáveis pelo apoio telefónico e pela gestão de avarias.

A produtividade era elevada e o custo total da estrutura por utilizador era bastante reduzido, tornando a SRAP um exemplo à escala nacional da utilização das novas tecnologias para modernizar uma organização.

É claro que o facto de comprar computadores mais caros do que a concorrência, e sempre ao mesmo fornecedor, tinha associadas algumas insinuações de má gestão, e até mesmo de corrupção.

Como diz um colega meu, "não expliques com malícia o que podes explicar com estupidez". Eu poderia pensar que as pessoas que alegavam má gestão ou corrupção eram pessoas mal formadas e mal intencionadas, apenas movidas pela inveja, mas o que é um facto é que, na grande maioria dos casos, as críticas vinham de pessoas que não sabiam o que era gerir, o que era trabalhar para atingir objectivos, o que era utilizar critérios para analisar alternativas tendo em conta o custo total ("total cost of ownership"), e o que era ter a responsabilidade de tomar decisões e responder por elas.

O Dr. Évora tomava decisões baseadas em factores muito mais complexos do que simplesmente o preço. Talvez o fizesse de uma forma tão rápida e intuitiva que poderia indiciar a ausência de processo, mas o processo estava lá e os resultados eram inquestionáveis. Aliás, a maior parte das pessoas, na sua vida pessoal, toma decisões baseadas em factores muito mais complexos do que simplesmente o preço, utilizando nas suas decisões factores subjectivos como a qualidade de fabricação, a facilidade de utilização, a facilidade de manutenção, etc.

Um exemplo de um processo de decisão: um dia, o Dr. Évora enviou-me pelo correio um exemplar de um software que tinha comprado com o objectivo de melhorar a produtividade do trabalho entre as ilhas, evitando deslocações desnecessárias, já que permitia aos técnicos colaborarem on-line sobre o mesmo écran. O objectivo era que eu o ajudasse a testar o software, ligando-me a ele a partir de Lisboa. Estabelecemos a ligação através de modems e fizemos alguns testes, e os resultados pareceram-me satisfatórios, mas havia alguns aspectos no software que não eram muito intuitivos, e a resistência à fraca qualidade das comunicações não era muito elevada, mas face ao custo reduzido, parecia-me uma boa aposta. Resultado: o Dr. Évora "chumbou" a ideia. Como o software não era 100% intuitivo de usar e tinha alguns problemas com a qualidade das ligações, era preferível deixar o problema (para já) sem solução, do que arranjar uma solução que não fosse 100% satisfatória, mesmo que o custo fosse baixo.